Éramos mais comunicativos, felizes e produtivos?

ÉRAMOS MAIS COMUNICATIVOS, FELIZES E  PRODUTIVOS SEM O FACEBOOK E WHATSAPP?
(Rev. Antonio Carlos Jr.)

“A realização mais influente da proximidade virtual parece ser a separação entre comunicação e relacionamento. Diferentemente da antiquada proximidade topográfica, ela não exige laços
estabelecidos de antemão nem resulta necessariamente em seu estabelecimento. ‘Estar conectado’ é menos custoso do que ‘estar engajado’ – mas também consideravelmente
menos produtivo em termos da construção e manutenção de vínculos” (ZYGMUNT, Bauman. Amor Líquido: sobre  a fragilidade dos laços humanos)

Certa vez eu tomava café com minha esposa e o celular não parava de vibrar por
causa das muitas mensagens que chegavam para mim. A culpa certamente não era daquele
que enviava a mensagem, mas como pastor e professor, meus contatos são amplos e as
pessoas tem livre acesso para falar comigo. Gostaria de dar a mesma atenção para todos, mas este todos se tornou amplo demais. Percebi que deveria mudar, mas antes de qualquer
mudança precisamos pensar, ler e orar sobre o assunto. Este texto é fruto de uma reflexão
pessoal que traz princípios e pensamentos, não regras e leis. Em outras palavras, não procuro
estabelecer paradigma para uma mudança de comportamento, mas uma reflexão sobre os
hábitos que podem gerar transformações duradouras. Sobre o Facebook, outras redes sociais
e tantos aplicativos de mensagens, experimentei e diagnostiquei os seguintes pontos…

1. DECEPÇÃO
Ao invés de construir relacionamentos, interagir para o bem maior e espalhar amor,
muitos buscam apenas atacar, ferir, expor e escandalizar. Vemos muitos curiosos, fofoqueiros
e juízes morais vagando e avaliando os erros de outros, quando eles mesmos caíram no
pecado da preguiça, ócio e orgulho. A decepção é maior quando o amigo da aliança, um
companheiro, aquele que participou da sua vida e comeu o seu pão – como foi o caso de Judas e Jesus – usa os lábios para fazer o mal (Salmo 55.12,13). Vi muitos cristãos revelando
espírito contrário ao de Cristo, agindo de modo carnal. Certamente todos nós falhamos e
podemos decepcionar ao próximo, mas erros sem arrependimento, repetidos muitas vezes,
revelam que os praticantes destes males nunca conheceram a Cristo de verdade.

2. DEPENDÊNCIA
Vejo adolescentes encurvados diante do celular, ironicamente na mesma posição de
idólatras que se dobram diante de ídolos. Tudo aquilo que consome é vício e todo vício é um
ídolo do coração. A avareza, por exemplo, é idolatria (Colossenses 3.5) e a dependência
emocional é empecilho ao discipulado de Cristo (Salmo 27.7-10; 73.23-28; Mateus 10.37-39). Algumas pessoas não conseguem se desprender do Facebook, estão ali e permanecem
com os seus olhos fixos, sempre colocando fotos de si mesmas e verificando quantas curtidas
ou elogios recebeu, se chegou uma nova mensagem, etc. Adolescentes vão ao banheiro e
tiram 500 fotos selfie para depois serem chamadas de lindas e retribuírem quem elogiou com
o mesmo elogio: você que é linda. Uma superficialidade que tem contribuído para a exaltação
do ego e uma desconfiguração da imagem própria.

3. DISTANCIAMENTO
Uma das funções do meu trabalho como pastor é ajudar aos membros da igreja com
orientação bíblica, no entanto, fui buscado por pessoas que nem conhecia. Semana passada
alguém me chamou no whatsapp buscando conselho, não reconheci o número e realmente
nunca tinha visto a pessoa. Lamentei não poder ajudar e me coloquei à disposição para
orar/aconselhar apenas de forma pessoal, caso a pessoa fosse à igreja. Claro que não foi, o
distanciamento é mais fácil e seguro. A comunicação com as pessoas se tornou algo
impessoal, digitado, isolado, uma expressão triste da solidão. Em Cristo vemos algo diferente
pois ele tocou o leproso, olhou com amor para o jovem rico e lavou os pés dos seus amigos
(Mateus 8.1-4; Marcos 10.17-22; João 13.1-11).

A pessoa que você elogia na foto do Facebook poderia ser elogiada pessoalmente e
receber um abraço seu? Não seria isto mais profundo, amoroso, marcante, construtivo, sólido
e enriquecedor? Nos melhores de todos os tempos que esta humanidade já experimentou,
Deus colocou o homem no jardim de Éden, deu a tarefa de nomear os animais e, acima de
tudo, amar sua esposa. Veja, Deus deseja que o homem tenha um relacionamento saudável
com as pessoas, a natureza e consigo mesmo (descoberta, criação, desenvolvimento,
raciocínio, comportamento, solidariedade e companheirismo). Paulo tinha intimidade com
Deus e era um servo muito consagrado, mas ele também precisava de amigos, tanto que
escreveu com um tom de muita sensibilidade: “Procura vir ter comigo depressa… apressa-te a
vir antes do inverno.” (2Timóteo 4.9,21). Quantas vezes você parou para curtir as pessoas, o
lugar, o som, a comida e outras coisas boas da vida que seriam, no máximo, contempladas em vídeos ou imagens na palma da mão, mas poderiam ser contempladas e tocadas
pessoalmente? Será que vamos limitar nossas vidas enclausurados na experiências de outros?À medida que usava o Facebook, cada vez mais acreditava que Bauman, sociólogo citado no início deste texto, estava certo sobre a instabilidade e superficialidade dos relacionamentos nas redes sociais.

4. DISPERSÃO
Quantas vezes eu e você paramos uma leitura preciosa para responder mensagens e
mais mensagens? Quantas vezes perdemos a concentração/foco porque deixamos mil janelas
abertas e não conseguimos pensar em uma coisa só? Lembro-me que vivi três anos
maravilhosos em MG, no IBEL, quando não tinha computador ou TV e debruçava sobre
livros, conversava com pessoas, orava com os irmãos, tocava meu violão e pregava nas ruas,
praças e prisões. Nossa sociedade de consumo procura colocar mil riquezas diante de nós,
mas Cristo nos exorta a termos uma vida simples, como ele mesmo. Informações espalhadas,
muitas vezes sem fonte, frequentemente fruto do imaginário comum, revelam que a nossa
sociedade avançou na produção de livros, mas não de bons leitores. A mente na internet vagueia e muda de assunto rapidamente, algo que se tornou comum neste chamado “mundo
pós-moderno”, a instabilidade, mudança constante e falta de concentração.

5. DIVISÃO
Infelizmente temos a tendência de corromper aquilo que poderia ser de alguma forma
proveitoso. Quantas vezes debates viram troca de ofensas e argumentos são construídos
simplesmente para prevalecer e sentir-se superior. A vitória se torna, muitas vezes, um
instrumento para humilhar o adversário. O conhecimento que não é desenvolvido pelo e para
o amor só pode ser soberbo e infrutífero. Nestes dias em que nos aproximamos da eleição isto
tudo pode ser visto com clareza.

6. DETURPAÇÃO
Palavras são escorregadias mesmo para aqueles que dominam a língua, sim, elas são
insuficientes para demonstrar com toda propriedade a profundidade, o peso e a ênfase do
sujeito. Filhos se lembram com gratidão da presença dos pais muito mais do que o brinquedo
que serve apenas como instrumento de aproximação. As palavras precisam dos olhos para
afeiçoar e chorar, das mãos para tocar e servir, dos pés para correr e do coração para pulsar
solidário. O corpo todo fala e interage, por isso, a comunicação é mais eficaz se estivermos
física e emocionalmente envolvidos.

7. DETERIORAÇÃO
Este ponto é o fruto de todos os outros. Qualquer tipo de dependência pode tirar você
de um grande propósito, de um grande amor, de uma vida comunicativa, emocionante,
vibrante e cheia de experiências. A Bíblia fala que devemos nos desprender de todo peso e do
pecado que tenazmente nos assedia (nos oprime, rodeia), em outras palavras: “livremo-nos de tudo o que nos atrapalha e do pecado que nos envolve, e corramos com perseverança a
corrida que nos é proposta” (Hebreus 12.1). O autor usa a metáfora de um atleta que
certamente não pode estar embaraçado ou sobrecarregado com qualquer coisa que venha
atrapalhar sua corrida. Você consegue imaginar um atleta que participa de uma olimpíada
vestindo moletom e com uma mochila nas costas? Esta ideia é ridícula, não é? Contudo, na
vida prática, muitas vezes temos permitido que coisas não essenciais atrapalhem nossa
carreira. Jesus nos ensina a amputarmos qualquer coisa que nos faça tropeçar (Mateus 18.7-
9)

O Facebook e aplicativos de mensagens podem ser usados positivamente, mas, por
favor, faça a si mesmo as seguintes perguntas: Tenho aproveitado bem o meu tempo?
Converso e mantenho relacionamentos pessoais e comunicativos? Delimito o uso do celular e
aplicativos que podem causar dependência? Uso o Facebook, whatsapp e outros aplicativos
para ajudar e beneficiar outros? Estou disposto a, se necessário, amputar coisas que tem
atrapalhado o meu crescimento na graça e no conhecimento de Cristo? Eu resolvi sair do
Facebook depois de pensar bastante sobre isto e espero que o meu exemplo sirva, de alguma
forma, para que outros irmãos reflitam sobre este assunto à luz da Palavra de Deus. Se quiser
conversar comigo sobre este texto podemos tomar um café, inbox não mais (rs.). Dialogar,
tocar, rir e olhar para a família, irmãos e amigos é uma bênção que não podemos desprezar.

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